O não romance surrealista mais importante da America Latina – Resenha de: O jogo da amarelinha de Julio Cortázar

“De que serve um escritor se não for para destruir a literatura?”

O jogo da Amarelinha – Página 417

Julio Cortázar é um dos grandes nomes da literatura latino americana, escreveu diversos contos e romances que foram traduzidos no mundo inteiro. Ele foi um argentino que nasceu em Bruxelas, onde os pais trabalhavam, em 1914, mas viveu, praticamente, toda sua juventude na Argentina. Lá foi criado por três mulheres, sua mãe, sua tia e sua avó, estudou letras e foi professor de literatura por anos até se opor ao regime de Perón. Ficou mais alguns anos na Argentina até ir para Paris, onde ganhou uma bolsa de estudos. Por lá ficou e trabalhou muitos anos como tradutor na UNESCO.

Engajado politicamente, foi considerado um subversivo perigoso pela CIA, e também, um notório a gente do imperialismo pela KGB. Julio apoiou a revolução cubana, mas também a criticou quando colegas poetas foram presos pelo regime. Foi um ativista de esquerda que deu seu total apoio a luta pelos direitos humanos, participando de comissões e congressos em apoio às vitimas das ditaduras latino americanas. Apresentou suas obras, tanto nos Estados Unidos, quanto em Cuba.

“Quero escrever outro (romance), mais ambicioso, que será, temo eu, bastante ilegível; quero dizer que não será o que em geral se entende por romance, e sim, uma espécie de resumo de muitos desejos, muitas ideias, muitas esperanças e também, porque não, de muitos fracassos.”

Julio Cortázar sobre o que seria O jogo da amarelinha em uma carta a Jean Barnabé, 17 de dezembro de 1958.

O Jogo da amarelinha, sua obra prima, foi lançada em 63, e é considerado o primeiro livro surrealista da literatura argentina. Criado para ser um não romance, com personagens irritantes que usam palavras bonitas, este é um livro é complexo e difícil, que às vezes parece ser apenas uma casca do que poderia ser. Entre passagens geniais, e outras nem tanto, vemos um argentino, Horácio Oliveira, flanando pelas ruas de Paris à procura de Maga, sua namorada e contraponto.

O livro é dividido em três partes: do lado de lá, do lado de cá e capítulos prescindíveis. A primeira parte conta a história de Horácio em Paris, seu relacionamento com Maga e sua amizade com um grupo que se auto intitula: o grupo da serpente. Oliveira e seus amigos, todos artistas e, a maioria, imigrantes (do leste europeu, da China, dos Estados Unidos, do Uruguai, etc) se reúnem para escutar jazz e entrar em discussões metafísicas que não os levarão a lugar nenhum.

“Os surrealistas acreditavam que a verdadeira linguagem e a verdadeira realidade estavam censuradas e relegadas pela estrutura racionalista e burguesa do Ocidente.”

O jogo da Amarelinha – Página 416

Já na segunda parte, do lado de cá, Horácio volta para a Argentina e reencontra um antigo amigo, Traveler, que é casado com Talita. De volta para sua terra natal, Horácio, que além de ver Maga em outras mulheres, passa por situações inusitadas, como trabalhar em um circo e depois em um hospício. Nesta parte lemos a passagem mais famosa do livro: uma cena onde Talita fica suspensa por duas tábuas de madeira entre seu apartamento e o de Horácio, que são em blocos diferentes. Cortázar diz que se inspirou em um acontecimento real e escreveu todo livro à partir disto.

Os capítulos prescindíveis, são, como o nome já diz: prescindíveis. Eles não alteram a história e a maioria é desnecessária. Mas é nesta parte que se encontra passagens incríveis com reflexões pertinentes. Dizem que O jogo da amarelinha é um livro que se pode ler de diversas maneiras, mas isto não é verdade. Cortázar nos deu duas opções para descobrir o mesmo livro, e a única coisa que difere é que você pode escolher ler o livro com as incursões filosóficas ou não. E para isso existe um tabuleiro, que te leva de um capítulo a outro. Alguns desses capítulos enriquece a história, como os de Morelli, personagem criado para representar a crítica sobre a literatura, e outros não.

A leitura foi cansativa e demorada. O personagem principal é uma pessoa desagradável e egocêntrica que parece estar estagnada dentro de si. Cortázar escreveu diversas passagens em inglês, francês e italiano, que a editora fez questão de não traduzir, ou seja, ou ficamos sem saber o que estava sendo dito ali, ou temos que traduzir por conta própria. Quando questionado sobre isso Cortázar disse que o fez por puro pedantismo. Ao meu ver este é um livro que propõe uma construção complexa que não é entregue com maestria. Mesmo assim, eu acredito que é uma leitura importante, não só pelo contexto histórico, mas pela importante figura de Cortázar que é um latino americano, como nós, que alcançou o mundo.

Quando este conto terminar já estarei morta – Mini conto #1

Minhas mãos estão suando, não consigo respirar, está acontecendo algo inexplicável dentro de mim. A morte. A morte da alma. A morte da vida. O corpo que apodrece e fede. Pessoas que não vejo há anos estarão lá dizendo: Uma mulher tão boa, pena que era doente. Hipócritas. Eu fui uma cuzona por anos, não queria ninguém próximo, nem ajuda, nem carinho. Quero desaparecer.

Um calor.

Recobro a memória, estava nadando em uma praia de água azul. Tomei uma bebida esverdeada e esmeraldas caíram sobre mim. Uma delas era tão grande que fez minha testa sangrar. O sangue escorria e fluía, Eu nadava neste líquido quente e vermelho: peito, borboleta, crawl.

Stop! Don’t speak in english with me.

Sou só uma criança querendo ir para casa, para os braços da minha mãe que morreu em mil novecentos e vinte e três de malária. Olho para as minhas mãos e vejo elas enrugadas como a de uma bruxa de contos de fadas. Olho no espelho e vejo: sou a bruxa. Sou uma velha enrugada de nariz grande e pontudo.

Grito!

Sussurro.

A senhora está bem? pergunta uma menina de roupa branca. Que pele macia e esticada. Eu sou assim também, eu preciso ser assim. Então digo: Você é tão linda, minha filha. Mas as palavras não saem. Eu grito mas as palavras não saem. Preciso fugir para onde me entendam. Sim, minha mãe, quero a minha mãe.

Quero ver minha mãe! Me levem para a minha mãe!

Definho, estou magra, velha, perdida, não penso, não falo, não mecho meus membros. Socorro! Apago, acordo, apago, acordo, apago, acordo. Até que não acordo mais, nunca mais. Não nesta dimensão, o corpo físico é só receptáculo de energia.

O corpo morre mas a alma ressoa para sempre.

O livro das coisas não ditas – Resenha: Todos os nossos ontens de Natalia Ginzburg

Natalia Ginzburg cresceu com um espírito insubordinado que herdou de seu pai, professor universitário, um judeu abertamente de esquerda, e que compartilhava com seus irmãos, que foram presos pelo regime facista de Mussolini, durante a perseguição dos nazistas aos judeus. Uma das maiores vozes da literatura italiana do século XX, Natalia nasceu em Palermo e viveu uma vida dedicada ao antifascismo. Perdeu o primeiro marido, torturado e morto pelo regime, e viveu os anos da segunda guerra mundial exilada, dentro do próprio pais, por ser judia.

Escreveu diversos romances, artigos jornalísticos, crônicas e ensaios. As reedições de suas obras no Brasil se deu pelo fenômeno Ferrante. Veio em um momento oportuno pois temos que retomar as lutas antifascistas e discutir sobre qual o mundo que queremos viver e como podemos recriá-lo da maneira mais justa possível. Ginzburg lutou ativamente no movimento antifascista e foi figura fundamental da resistência italiana.

“Emanuele voltava para sua casa e explicava a mamãe que a questão da Itália não era tão importante, porque na Polônia caíam bombas enquanto ela estava sentada tomando chá, na Polônia as casas desabavam e quando há casas que desabam não era importante saber se desabavam em um ponto ou outro do mundo.”

Todos os nossos ontens – Página 76

A obra de Natalia Ginzburg é permeada de um realismo que nos lembra os horrores da guerra pelos olhares inocentes de seus personagens. Logo no início conhecemos uma família de classe média italiana, composta pelo pai, que não sabemos o nome; os filhos: Concettina, Ipollito, Giustino e Anna; e a senhora Maria, que foi dama de companhia da avó, e depois da morte desta passou a cuidar dos afazeres domésticos. Cada personagem tem uma característica própria, o que nos faz ver o conturbado fim dos anos 30, durante o pré guerra, e o período da segunda guerra mundial, por diferentes olhares do mesmo provincianismo.

O pai é um comunista viúvo que passa seus últimos anos de vida escrevendo um livro de memórias que não mostra para ninguém. Concenttina é uma moça “namoradeira” que está sempre preocupada com a aparência, e ás vezes com a escola. Ippolito é o filho mais velho no qual o pai joga toda a responsabilidade e também a raiva que sente do mundo, diversas vezes vemos ele humilhando o menino sem motivo aparente. Anna é uma garota ingênua, que vive romantizando a revolução. Giustino é o irmão mais quieto mas o único que luta ativamente como partigiani. Por fim, a senhora Maria, que é uma velhinha teimosa e superficial que vive a recordar as grandes viagens que fizera com a avó.

“Não acreditava que a vitória já fosse dos alemães, essa era uma guerra na qual ninguém teria ganhado ou perdido, no final se veria que todo mundo teria perdido alguma coisa” 

Todos os nossos ontens – Página 160

Outros personagens também são apresentados como Cenzo Rena, um grande amigo do pai de Anna. Danilo, um dos namorados de Concettina, o único ali da classe trabalhadora, que se torna amigo de Ipollito e Emanuele, que juntos buscam formas de acabar com o fascismo. Os vizinhos da casa ao lado: os irmãos Emanuele, Giuma e Amalia, Franz, um alemão judeu que vivia com eles, e o pai e mãe, donos de uma fabrica de sabão. A vida de todos se entrelaçam e assim criam amizades, relacionamentos, discussões e ajuda mútua no período da guerra.

Todos os nossos ontens é narrado em terceira pessoa, mas não por um narrador onipresente, o filtro são os olhos de Anna, o único personagem que vemos os sentimentos mais profundos. Digo que este livro é o livro das coisas não ditas porque ao longo dele vemos os prenúncios de coisas que estão por acontecer, mas só temos certeza quando elas acontecem.

“Mas fazer a revolução para Cenzo Rena queria dizer ir até a prefeitura e retirar todos os velhos processos que apodreciam nas gavetas, e fazer com que a marquesa soltasse o dinheiro para arrumar o esgoto, e para montar um ambulatório, com um médico bom que não se deixasse apodrecer. “

Todos os nossos ontens – Página 179

Natalia Ginzburg escreveu um livro sobre a guerra pelos olhos do italiano médio, que ficava em casa esperando notícias, comida e retornos. Foi dividido em duas partes, o antes e o durante a guerra e assim conhecemos um pouco sobre as pessoas que viviam no interior da Itália, primeiro no norte, depois no sul. Ali os fascistas nem eram tão fascistas assim, como o sogro de Concettina. A revolução não era tão revolucionária assim, pois a luta antifascista se faz com ação e não com sonhos. Vemos, também, a perseguição aos judeus na Itália. Ginzburg escreveu este livro de uma forma muito sutil e repetitiva que às vezes chega a ser monótono mas não podemos esquecer que este é um livro permeado de medo, esperança, perdas, tristeza e luta, os personagens são como nós, pessoas comuns tentando sobreviver.

Cuidado: os contos deste livro podem ser assustadores, assim como o ser humano que é falho e imprevisível. Resenha: Antes do Baile Verde de Lygia Fagundes Telles

Antes do Baile Verde foi meu primeiro contato com Lygia Fagundes Telles, algo que eu já queria fazer há muito tempo, até porque dizem que eu escrevo de forma similar a ela. Entrei em uma leitura coletiva que foi muito enriquecedora pois pude ver como a escrita da Lygia traz diversas interpretações para um mesmo conto. Cada um tinha sua percepção sobre as tramas e isso foi lindo.

Lygia Fagundes Telles é uma escritora brasileira que nasceu em São Paulo em 1923, estudou direito no Largo de São Francisco, uma das primeiras mulheres a frequentar o curso. Lá participou de rodas literárias, onde conheceu Oswald de Andrade e Mário de Andrade, escritores modernistas. Seu primeiro livro foi lançado em 1938, financiado por seu pai, que ensinou a ela que o verde é a cor da esperança. Ele, grande apostador, sempre escolhia o verde na roleta, ela, grande contista, sempre trazia o verde em seus contos, a única cor que amadurece. Lygia também foi uma das principais escritoras a lutar contra a censura do AI-5.

Lygia Fagundes Telles

Publicado pela primeira vez em 1970, Antes do Baile Verde é uma antologia pessoal da escritora que escolheu os contos à dedo entre os tantos que já publicados. Lançado muitos anos após Ciranda de Pedra (1954), romance que marca o nascimento de Lygia para uma escrita, segunda ela, mais madura, Antes do Baile Verde é, junto com Ciranda de Pedra, marco do início do universo “Lygiano”. Ou seja, à partir deles encontramos muitos elementos e signos semelhantes que se repetem ao longo de sua obra. Os livros posteriores foram, a pedido da própria autora, descontinuados.

Os contos deste livro são densos e complexos mas foram escritos de uma forma tão fina que nos faz ter certeza de que cada situação ou objeto colocado ali traz sentindo para a história. Lygia nos mostra a vida humana como ela é, sem dramalhões, ou felicidades exageradas. Os sentimentos como opressão, ciúmes, arrependimento, solidão, desilusão são mostrados de uma forma leve e sutil, quando percebemos já estamos hipnotizados e assustados. Sim, os contos deste livro podem ser assustadores, assim como assim como o ser humano que é falho e imprevisível.

É maravilhoso ver como ela lapida suas histórias de forma muito inteligente, deixando tudo dito e ao mesmo tempo tudo vago. Os finais abertos são sua marca registrada, criando assim, diversas interpretações para uma mesma história. A descoberta dessa autora tão famosa na literatura nacional e mundial foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida literária, esse ano, pois não é sempre que lemos algo, assim, tão refinado.

Ivan vai morrer, todos sabem, mas ninguém tem a coragem de dizê-lo. Resenha: A Morte de Ivan Ilitch de Tolstói

O primeiro contato que tive com a leitura de Tolstói foi com Anna Karenina, no começo desse ano (2020), depois não pensava que leria outra obra do autor tão cedo. Mas por uma ironia do destino decidi ler A morte de Ivan Ilitch, lançado em 1886, em uma leitura coletiva. Comprei a edição da Antofagica e foi uma ótima surpresa, tanto pela estética, quanto pelo conteúdo.

Conde Tolstói foi, na minha humilde opinião, e na opinião de Dostoiévski, Nabókov, Joyce, Proust, o maior nome da literatura russa. Escreveu diversos romances, além disso, criou uma linha de pensamento chamado Anarquismo Cristão. Teve diversos seguidores, alunos e admiradores, o mais conhecido deles foi Mahatma Gandhi. Liev Tolstói era um aristocrata às avezas, estava mais próximo de ideais libertários do que do conservadorismo Russo, vivendo mais próximo dos camponeses do que dos nobres. A escrita sempre foi presente em sua vida, nunca parou de fazê-lo, nem quando estava lutando na guerra da Crimeia.

Apesar de abordar um assunto tão complexo como a morte, este livro é atemporal e pode ser lido por qualquer um, por ser pequeno e simples. Ivan Ilitch vai morrer, ele sabe disso, nós sabemos disso, as pessoas próximas a ele também sabem disso, mas ninguém tem coragem de dizer-lo. Então, falou Tolstói, que nos mostra com minúcias o que alguém que está com uma doença sem cura se sente, morrendo aos poucos, sofrendo sozinho, sem ninguém que dê carinho e atenção.

Conhecemos um pouco da vida pregressa de Ivan, como ele se tornou juiz e como ele conheceu a mulher que seria sua esposa, mãe de seus filhos, com quem tem um relacionamento difícil que só se mantém por aparências. Ele é um homem extremamente dedicado ao trabalho, que se diverte jogando com os amigos e passa mais tempo fora de casa do que dentro. Têm um salário mediano e faz parte da classe média alta. Um homem ordinário que leva a vida seguindo os rigorosos protocolos da hipócrita sociedade russa. Em certo momento se arrepende de ter vido sem viver, o que nos traz reflexões importantes sobre a vida, mas ja era tarde demais.

Li este livro em dois dias, e tive diversas sensações sobre ele. A leitura é fluida e as passagens sobre a doença são angustiantes pois começa apenas como uma pequena dor e depois aumenta, aumenta, até se tornar insuportável. Para finalizar deixo aqui meus parabéns a Tolstói por escrever de forma tão limpa e simples este pequeno romance complexo, e ao tradutor que conseguiu manter o texto assim: limpinho limpinho.

5 Livros importantes para você que quer estudar sobre feminismo!

Sinto que sou feminista desde que era novinha, porque não entendia porque existiam coisas de menino e coisas de menino. Achava a vida dos meninos tão mais legal, os jogos emocionantes, as brincadeiras ao ar livre, os esportes de risco, as grandes estrelas do rock que eram sempre homens. Olhava para os lados procurando personalidades para me identificar e não encontrava, até porque, sempre me entendi como mulher, mas a representação do feminino me incomodava. Via a maquiagem como uma máscara e os apetrechos sufocantes. Isso que eu nem tinha 12 anos. Mas desde sempre busquei minha própria voz, gostava de imaginar que eu era uma estrela do rock, mesmo sabendo que mulheres, neste meio, eram sempre as tietes, ou modelos, que corriam atrás das estrelas, e eu não suportava ser isso. Queria ser uma mulher importante e não um bibelô.

Porém, todas essas ideias que eu considerava feministas estavam só na minha cabeça, não tive contato com nenhuma teoria até meus 21, 22 anos, e quando o fiz senti que minha cabeça explodiria. Li O Segundo Sexo, O Mito da Beleza, Woman Hating, ensaios da Emma Goldman, discursos da Angela Davis, tudo em pdfs que ia achando em grupos feministas. Aos poucos compreendi a complexidade do que é ser mulher e ser socializada como mulher.

Bom, estou dizendo tudo isso para trazer para vocês os livros feministas que estou relendo/lendo neste momento. Alguns eu li há muitos anos e guardo na memória com carinho como Um Teto Todo Seu. Outros que li e não coloquei na lista, pois faz tanto tempo que preciso revisitar como Mulheres, Cultura e Politíca da Angela Davis e Os Homens Explicam Tudo Para Mim da Rebecca Solnit.

Os cinco que trouxe hoje são os que eu considero mais importante agora, e espero que possamos trocar ideias sobre eles e estudarmos juntas esses assuntos. Até porque, minha vida literária é baseada em ler o máximo de mulheres possível e disseminar a palavras delas pelo mundo! 💕

Um teto todo seu – Virginia Woolf

Um grande ensaio de Virginia Woolf que com uma perspicácia incrível nos mostra como as portas do conhecimento foram fechadas para as mulheres que não podiam entrar nas Universidades, nem nas bibliotecas, éramos ensinadas a cuidar da casa e dos filhos e só. Não tínhamos um espaço nosso para nos dedicarmos a escrita, por isso muitas não o fizeram. Virginia tem uma sacada interessante: Se Shakespeare tivesse uma irmã tão talentosa quanto ele, como seria o futuro dela?

Quem tem medo do feminismo negro? Djamila Ribeiro

Quem tem medo do feminismo negro de Djamila Ribeiro: este livro eu ganhei de uma grande amiga que respeito muito, eu, como branca, sempre me identifiquei com feministas brancas, primeiro porque este conteúdo é mais disseminado e segundo porque para mim a luta era mesma, uma menina bobinha. O primeiro contato que tive com questões de raça foi com Angela Davis em seus artigos e discursos, mas sentia que eram muito distante de mim por estarem relacionados com a cultura americana. Depois a Djamila apareceu mostrando com eficácia como o racismo é estrutural e debilitante. Este é um livro com vários artigos compilados e essencial para a luta feminista como um todo.

Calibã e a bruxa – Silvia Federici

Um livro de explodir a cabeça, ele explica à fundo o que foi a caça as bruxas, qual era o contexto social, religioso e laboral que as mulheres estavam submetidas naquela época. Aborda diversos assuntos de extrema importância, tanto para luta de classe, quanto para o feminismo: a colonização, a cristianização, a acumulação de capital, a propriedade privada. É um grande livro de história, que além de falar sobre a caça as bruxas também nos mostra como foi a transição do feudalismo para o capitalismo e como isto um processo sangrento. 

O mito da beleza – Naomi Wolf

Esse foi o primeiro que me impactou forte, ele nos mostra como a cultura da beleza nos oprimem tanto no trabalho, quanto na vida pessoal, fazendo com que tenhamos que estar sempre belas, arrumadas, gastando rios de dinheiro para subir na carreira, e na vida. Faz refletir sobre várias inseguranças que temos em relação ao nosso corpo e nos faz entender o porque gastamos mais do que devíamos com cosméticos e intervenções estéticas. Aprendemos como esses padrões são destrutivos e cansativos.

O segundo sexo, volume 1 – Simone de Beauvoir

Já fiz uma resenha dele (que você encontra no post abaixo), mas quis trazer ele aqui de novo. Ele é um grande resumo de todas as pautas feministas que estão nos livros anteriores. Fala da mulher como propriedade privada, nos dá um panorama histórico da condição feminina desde os primórdios até os dias atuais, nos mostrada dados biológicos de diversas espécies de animais e a suas funções reprodutoras, investiga a condição feminina em um contexto psicanalítico e dentro de um materialismo histórico, onde ela explica que a construção social da feminilidade foi uma criação que encarcerou a mulher dentro de suas funções reprodutivas.

Um dos mais importantes livros feministas já escritos – Resenha de: O segundo sexo de Simone de Beauvoir

O Segundo Sexo não foi escrito para ser um livro feminista. Simone de Beauvoir não tinha esta pretensão, mas ele se tornou um grande símbolo da segunda onda do feminismo burguês europeu/americano. Há alguns dias escrevi uma resenha sobre Os Mandarins, livro posterior ao Segundo Sexo, grande romance de Beauvoir. Lá, também, escrevi uma pequena biografia sobre está magnífica escritora, que também foi professora, filósofa, participante da resistência francesa contra a ocupação Alemã, abertamente bissexual e extremamente politizada.

Simone de Beauvoir por Cartier Bresson

Publicado em 49, poucos anos após a segunda guerra mundial o livro foi criticado tanto pela direita, quanto pela esquerda (diferente de Os Mandarins, de 54, que seria bem aceito), mas vendeu mais de 22 mil cópias na primeira semana de seu lançamento. Simone nos diz em seu livro de memória, a Força das Coisas, que a idéia para escrever um livro sobre a condição feminina veio de uma conversa com Sartre, que a perguntou se ela já havia se questionado sobre o que é ser mulher. Simone conta, então, que isto nunca fora uma questão pois ela não sentira obstáculos por seu sexo, nem para escrever, nem para trabalhar.

O volume 1 do Segundo Sexo é dividido em três partes: Destino, História e Mitos. Cada uma serve como introdução ao pensamento de Beauvoir que virá no volume 2. A primeira parte investiga dados biológicos de diversas espécies de animais e a suas funções reprodutoras. Nos mostra que nos animais não existe o feminino como nós conhecemos: a fantasia de ser mulher. Ela também investiga a condição feminina em um contexto psicanalítico e dentro de um materialismo histórico, onde ela explica que a construção social da feminilidade foi uma criação que encarcerou a mulher dentro de suas funções reprodutivas, e que alguns valores diferem de acordo com contexto social e econômico de cada mulher.

Esses dados biológicos são de extrema importância (…). Mas o que recusamos é a ideia de que constituem um destino imutável para ela. Não bastam para definir uma hierarquia dos sexos; não explicam por que a mulher é o Outro; não a condenam a conservar para sempre essa condição subordinada.

O Segundo Sexo, Volume 1: Fatos e Mitos – Página 60.

Tanta força inspira aos homens um respeito misturado de terror e que se reflete em seu culto. Nela se resume toda a Natureza estranha.

O Segundo Sexo, Volume 1: Fatos e Mitos – Página 104.

A Segunda Parte é onde Beauvoir estuda a história pregressa da mulher desde o surgimento da agricultura. Aqui ela identifica as diferenças femininas e masculinas nos primórdios, começando pelos nômades ela passa pelos gregos, romanos, beduínos, muçulmanos, Europa cristã, até o fim dos anos 40. A mulher ficou em casa pois as tarefas domésticas eram mais próximas da maternidade, ou seja, a mulher não produzia nada novo e não alimentava sua independência saindo para caçar como os homens. Apesar disso o trabalho doméstico era muito mais cansativo e trabalhoso. Simone analisa o Mito Feminino da deusa e mostra como os homens tinham medo da maternidade e como endeusavam mulheres pois viam misticidade no parto. Mesmo deusa quem comandava e liderava eram homens.

A terceira e última parte é dedicada aos mitos criados sobre a mulher: a virgem, a mãe, a boa esposa. Cada sociedade tem o seu tipo de mulher ideal, e todos eles impõem algo a mulher que a impede de transcender a espécie. Sempre propriedade, anexada ao homem ela o reflete perante a sociedade. Simone analisa profundamente a obra de cinco escritores: Motherlant, D.H. Lawrence, Claudel, Breton e Stendhal. Cada um com sua própria convicção e olhar sob a feminilidade e o papel da mulher no mundo, o que pode ser maçante para quem não conhece esses escritores, meu caso. Ela nos dá panorama interessante sobre o que estava sendo produzido na França e como algumas obras influenciaram o modo como as mulheres, e a feminilidade, eram vistas em um contexto coletivo.

Resenhar o Segundo Sexo, assim como lê-lo, não foi uma tarefa fácil, o livro é cheio de referências históricas e culturais, toda página tem algum grifo interessante ou um dado importante. Por ser um grande artigo de investigação tentei resumir o que estava escrito para mostra a idéia geral do contexto no qual este livro foi escrito. Este não é um livro com viés politico, nem datado. Simone é imparcial e escreveu uma obra prima que analisa a condição feminina de diversas classes sociais. Para mim, este é um dos maiores livros que o academicismo francês nos deu.

Uma mistura do feminino e do masculino transforma este livro em uma obra prima do pós guerra – Resenha: Os Mandarins de Simone de Beauvoir

“As paredes giravam, mas eu me sentia muito lúcida, muito mais lúcida do quando sóbria. Quando sóbria, a gente tem muitas defesas, dá um jeito de não saber o que sabe.”

Os Mandarins – Página: 49

Simone de Beauvoir nasceu na primeira década do século vinte e dedicou sua vida a projetos filosóficos e literários. Filha da alta burguesia, como a maioria dos intelectuais da época, estudou em um colégio católico até seus dezessete anos, depois estudou matemática, línguas e, por fim, filosofia, na Sorbonne, matéria que lhe deu destaque, onde conheceu muitos de seus companheiros intelectuais.

É, realmente, difícil para mim, uma mera mortal, falar dessa grande mulher e de sua filosofia, mas tentarei resumir um pouco do que sua obra representa, não só para nós mulheres, mas para todo o pensamento ocidental. Para isso, me inscrevi em um curso da Revista Cult, ministrado por Juliana Oliva, estudiosa da obra de Beauvoir. Simone foi um expoente importante da corrente filosófica existencialista. Filosofia que acredita que as escolhas próprias definem a vida de um ser, o ser humano é o que ele faz e é livre para escolher.

A obra de Simone é permeada por investigações do ser a partir da existência, e ela passa sua vida escrevendo ensaios, livros e autobiografias em busca da sua transcendência: fazer algo além da espécie. Sua obra é extensa, e o seu livro mais conhecido é o Segundo Sexo, um grande ensaio sobre a condição da mulher na sociedade ocidental. Aos poucos ela encontra barreiras, como a segunda guerra mundial, época em que Paris fora ocupada pelos alemães. Nesta época Simone faz parte da resistência francesa e escreveu seu livro Os Mandarins com base no período final da guerra.

Simone de Beauvoir por Cartier-Bresson

“É preciso muita confiança no futuro para crer que a vida toda possa ter sentido.” 

Os Mandarins – Página: 241

Os Mandarins não é um livro fácil, suas 732 páginas estão inundadas de uma politica, já obsoleta, do pós segunda guerra mundial em uma Paris falida. As discussões mais importantes que permeiam o livro são a nova política da esquerda, que não chega a ser um comunismo mas também é, totalmente, contra ao capitalismo americano. Confesso que achei essas discussões maçantes e muito masculinas, esperava que o livro tratasse mais da condição feminina, o que faz, é certo. Porém esses questionamentos políticos, que os intelectuais burgueses fizeram no meio do século, são centrais neste romance. Algumas questões que discutem são ínfimas perto das injustiças que ocorrem no mundo, isto me enfastiou e fez com que eu demorasse muito para ler o livro inteiro.

O personagem protagonista destas discussões é Henri, um escritor e jornalista, diretor de um jornal que fora importante para a resistência francesa. Seguimos lendo sobre sua vida que envolve: lutas diárias para manter o jornal em pé, romances com diversas mulheres, como Paule e Nadine, e suas amizades, principalmente com o casal Dubreuilh, Anne e Robert, que são, também, pais de Nadine. A história de Henri nos é entregue por um narrador em terceira pessoa onisciente, ou seja, vemos o que acontece com ele sem muito sentimentalismo. Apesar disso ele é um personagem cheio de questões existências profundas, dúvidas e esperanças.

A intriga central do romance é o rompimento e a reconciliação entre Henri e Robert, mas em paralelo a isto vemos a história de Anne ser contada em primeira pessoa. Simone dedica, um capítulo a Henri e depois um a Anne, e segue este formato até o fim. Anne é, também, protagonista neste livro, e na minha opinião suas questões são muito mais interessantes que as de Henri. Pois ela se questiona em um nível pessoal, enquanto Henri se questiona em um nível político, ou moral.

“Que significa o fato de que o homem não para de falar de si? E por que certos homens resolvem falar em nome de outros?”

Os Mandarins – Página: 282

Anne é mulher, casada, mãe e psiquiatra, ela cresceu em uma família católica, como Simone, e se casou com Robert, vinte anos mais velho. Tiveram uma filha, Nadine, que também tem seus momentos fortes no romance, a construção desta personagem, e de todos os outros, tem uma profundeza assustadora pois as emoções que Simone descreve vão desde a alegria do fim da guerra, até o luto por aqueles que morreram. Ela cria mulheres profundas, que não são heroínas feministas pelas quais poderíamos esperar depois de ler o Segundo Sexo. Simone diz que escreve o que vê e nunca viu uma mulher liberta de todas as imposições do gênero feminino.

Neste livro vemos três mulheres importantes: Anne, que seria a mais liberta, mas passiva, vive um relacionamento aberto com Robert e se apaixona por um escritor americano, Lewis, com o qual vive uma história de amor intensa. Esta parte do livro é muito bonita mas também sufocante, pois este amor não é um amor seguro e saudável. Nadine é uma mulher que se masculinizou e se sexualizou para poder ser aceita no grupo de amigos, homens, que está envolvida, ela foge das feminilidades e sentimentalismos, é agressiva, mas no fundo vemos que é apenas uma menina imatura que não sabe ao certo como se impor, ou, nas palavras de Simone: transcender. Por fim, Paule, a mulher apaixonada que deu tudo de si para seu amor, Henri, e vive apenas por ele sem perceber que este relacionamento chegou ao fim, ela é insistente e vive completamente fora da realidade.

Bom, como disse no início, este não é um livro simples, nem de ler, nem de resenhar. É um livro forte, cheio de nuances, e complexidades, por isso recomendo uma leitura consistente e devagar. Ganhou o prêmio Goncourt, um dos maiores prêmios literários da França e foi bem aceito tanto pela direita, quanto pela esquerda. A grande mistura de personagens tanto feminino quanto masculino mostram a grande diversidade de olhares e a beleza do existencialismo em forma de literatura. Os Mandarins é uma obra prima escrito por uma mulher genial.

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⚠️VAMOS CONVERSAR? ⚠️ Os Mandarins foi publicado em 1954 e muitos dos seus questionamentos são ainda relevantes. Amanhã postarei a resenha do volume um do Segundo Sexo, mas antes disso quero chamar vocês para conversarmos sobre este grifo do Os Mandarins. “Por que uma mulher livre haveria de entregar-se a todos?” A frase do grifo foi dita por Anne, a personagem principal de Os Mandarins, quando conversava com Scrisiane um personagem que flertava com ela. Ele acredita que a liberdade sexual feminina significa que estamos sempre abertas para o sexo de uma maneira masculinizada e violenta. Ela, apesar de resistir se entrega a ele, e se arrepende pois foi uma noite em que Anne não experimentara prazeres próprios. Às vezes sinto que chegamos em um momento social que nos vemos obrigadas a mostrar nossa liberdade sexual aceitando dormir com qualquer um que nos solicite com medo de sermos julgadas como puritanas ou frígidas. Desde quando nossos corpos se tornaram domínio público? Li uma frase que dizia que a liberdade sexual não é dizer sim para todos mas poder dizer NÃO sem medo de julgamentos. A liberdade sexual feminina também deu liberdade aos homens para acharem que estamos sempre a disposição, como meros objetos sexuais. Ainda não somos seres livres que escolhem apenas por prazer próprio, na maioria das vezes nem sabemos o que é o prazer. Esses avanços foram muito importantes para a autonomia das mulheres, mas eles devem vir com consciência corporal e pessoal. Além disso, a educação sexual é um ponto fundamental para uma verdadeira liberdade sexual feminina. O que vocês acham? Sentem que a liberdade deu aos homens mais poder sexual sobre as mulheres? Qual é o ponto principal para uma verdadeira liberdade sexual feminina?

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Um livro forte e cheio de nuances, que representa com clareza o que foi a ditadura de Salazar – Resenha: Afirma Pereira de Antonio Tabucchi

Afirma Pereira foi minha segunda experiência na TAG (A primeira foi Sul da fronteira, oeste do sol de Haruki Murakami). A caixinha de agosto me surpreendeu, tanto pela beleza, quanto pelo conteúdo, a edição é linda e o livro tem uma simplicidade genial. Antonio Tabucchi é um italiano que viveu por anos em Lisboa, e desde que recebi a caixinha via coincidências com a minha própria vida por toda parte, ele nasceu em Vecchiano um pequeno vilarejo que eu costumava ir ano passado (2019) e onde tenho muitas recordações positivas, ele morou em Lisboa cidade que amo e escreve tanto em português quanto em italiano, minhas duas línguas do coração.

O livro, escrito na década de 90, está ambientado no final da década de 30 em Lisboa, um lugar oprimido pelo Estado Novo português, regime imposto por Salazar. A ditadura salazarista, um governo autoritário de inspiração fascista, durou até 74, ano em que aconteceu a Revolução dos Cravos, movimento militar que levou o país a democracia que existe hoje. Medo, repressão, censura e violência, esse é o contexto social que Pereira sem encontra quase sem querer.

Pereira é um jornalista obeso e apático que vive a vida da maneira mais mecânica possível. Todos os dias ele acorda e sai para trabalhar, é colunista de cultura de um jornal que apoia a ditadura, come omeletes, toma limonadas, traduz contos francês e conversa com o retrato de sua mulher morta. É católico e se vê como um bom cidadão, tem poucos amigos e uma saúde precária. Não apoia a ditadura mas também não faz nada para se envolver, pensa que aquilo não é problema seu.

Isso muda quando ele conhece Monteiro Rossi e o contrata para escrever necrológios. Logo de cara ele percebe que Rossi não tem talento, nem vontade de fazer aquilo. O que o menino quer, ou parece querer, é arranjar problemas políticos induzidos por sua namorada Marta que é claramente comunista, isso são palavras de Pereira, não minhas. Aos poucos vemos o personagem despertar, ele ajuda financeiramente Rossi sem esperar nada em troca, como se fosse um pai, e passa a ter conversas mais politizadas com pessoas a sua volta, como seu amigo Silva e o doutor Cardoso, dois personagens que tem opiniões diversas sobre o que está acontecendo.

As cento e cinquenta e sete páginas são narradas em forma de relato, e o que eu achei curioso é que Tabucchi usa o verbo “afirmar”, ao invés do comum “dizer”. Mostrando assim como podemos brincar com as palavras sem perder o conteúdo, além disso, encontrei muitas repetições que deixariam qualquer professor de Escrita Criativa de cabelo em pé. Isso afirma a genialidade de Tabucchi que construiu com simplicidade um livro forte e cheio de nuances, que representa com clareza o que foi a ditadura de Salazar.

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Afirma Pereira foi minha segunda experiência na TAG (A primeira foi Sul da fronteira, oeste do sol de Haruki Murakami, resenha na foto abaixo). A caixinha de agosto me surpreendeu, tanto pela beleza, quanto pelo conteúdo, a edição é linda e o livro tem uma simplicidade genial. Antonio Tabucchi é um italiano que viveu por anos em Lisboa, e desde que recebi a caixinha via coincidências com a minha própria vida por toda parte, ele nasceu em Vecchiano um pequeno vilarejo que eu costumava ir ano passado (2019) e onde tenho muitas recordações positivas, ele morou em Lisboa cidade que amo e escreve tanto em português quanto em italiano, minhas duas línguas do coração. O livro, escrito na década de 90, está ambientado no final da década de 30 em Lisboa, um lugar oprimido pelo Estado Novo português, regime imposto por Salazar. A ditadura salazarista, um governo autoritário de inspiração fascista, durou até 74, ano em que aconteceu a Revolução dos Cravos, movimento militar que levou o país a democracia que existe hoje. Medo, repressão, censura e violência, esse é o contexto social que Pereira sem encontra quase sem querer. Pereira é um jornalista obeso e apático que vive a vida da maneira mais mecânica possível. Todos os dias ele acorda e sai para trabalhar, é colunista de cultura de um jornal que apoia a ditadura, come omeletes, toma limonadas, traduz contos francês e conversa com o retrato de sua mulher morta. É católico e se vê como um bom cidadão, tem poucos amigos e uma saúde precária. Não apoia a ditadura mas também não faz nada para se envolver, pensa que aquilo não é problema seu. Isso muda quando ele conhece Monteiro Rossi e o contrata para escrever necrológios. Logo de cara ele percebe que Rossi não tem talento, nem vontade de fazer aquilo. O que o menino quer, ou parece querer, é arranjar problemas políticos induzidos por sua namorada Marta que é claramente comunista, isso são palavras de Pereira, não minhas. (Continua nos comentários 💖)

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O jazz é a trilha deste livro que está encoberto por uma névoa de mistérios – Resenha: Sul da fronteira, oeste do sol de Haruki Murakami

Faz algum tempo que venho namorando as edições da TAG mas nunca me senti impelida a entrar nesse clube. Primeiro porque não queria perder meu poder de escolha, e segundo porque é um valor salgado para despender todos os meses em um livro que eu nem sabia qual seria. Não estou dizendo que não vale, na real, prefiro dar meu dinheiro para eles do que para gigantes como a Amazon, as edições são lindas e valem cada centavo, eu é que não estava disposta a gastar 70 reais por mês por essa experiência. Enfim, depois de muito pensar, e ver as edições anteriores eu por fim fiz minha assinatura mensal para ver “qual era” desse clube literário.

O primeiro livro que recebi foi em julho de 2020, mês que estavam comemorando cinco anos de TAG. Escolhi o plano curadoria mas naquele mês eles mandaram um livro inédito no Brasil: Sul da Fronteira, Oeste do Sol de Haruki Murakami. A edição com ilustrações da Sabrina Gevaerd é maravilhosa. Fiquei surpresa ao receber um livro do Murakami, pois há anos quero ler algo dele, então, foi uma boa oportunidade de me lançar nas suas histórias.

O livro começa na infância do personagem principal Hajime e nos conta a história de sua amizade com Shimamoto, sua vizinha, uma garota que como ele é filha única. Essa amizade se torna importante para os dois, e ele experimenta seu primeiro amor, mas se afastam ao longo do tempo devido a uma mudança. Depois que ela sai de sua vida Hajime se envolve com outras mulheres e passa a narrar sobre sua vida ao lado delas, os erros que cometeu, e como acabou sozinho por anos. Sempre se lembrando de Shimamoto, que para ele foi seu grande amor.

Isso me incomoda porque vemos um personagem que vive completamente dentro de suas idealizações de um possível amor que nunca existiu. Ele cresce, estuda, trabalha e passa por seus 20 anos estagnado, até conhecer Yukiko, que se tornaria sua esposa. Foi amor à primeira vista e logo eles se casam e tem duas filhas. Com o dinheiro da família de Yukiko, Hajime monta um bar de jazz e mantém uma vida estável acima da média. Lá ele reencontra Shimamoto, que está muito diferente do que ele lembrava, a partir daí os dois retomam a antiga relação de um modo incomum.

O jazz é a trilha deste livro que está encoberto por uma névoa de mistérios. O personagem, que não me agradou no começo (nem em boa parte do livro), tem a sua redenção no fim. Um livro rápido e fácil, sempre em primeira pessoa. Hajime conta a sua vida a sua maneira, e nos dá um final surpreendente para os acontecimentos. Além disso, Muramaki nos faz refletir sobre amor e relacionamentos, nos fazendo questionar sobre como lidamos com essas emoções tão complexas e bonitas. Os últimos capítulos foram intensos, li com ferocidade, cheia de sentimentos contraditórios sobre as sensações que estavam descritas. Uma leitura agradável e desagradável ao mesmo tempo.